A perda e o luto
Perante a morte de um ente querido, o que primeiro e mais intensamente emerge é uma espécie de incredulidade e um terrível sentimento de perda. Parece haver uma falta de ar, uma vertigem, um vazio que não pode ser preenchido. Este estado de choque, físico e emocional, surge quando se toma consciência da irreversibilidade dessa perda: nunca mais se voltará a ver, a conversar com, a abraçar aquela pessoa.
O luto nada mais é que um longo processo de reação à e de integração da perda de alguém amado. Apesar de doloroso e demorado não é uma condição patológica, mas sim uma resposta normal e adaptativa que envolve também o reajustamento a um mundo externo no qual essa pessoa já não está presente.
Numa fase inicial o processo de luto é caracterizado, na maioria das situações, por uma comoção e sofrimento intenso, por um desespero que toma conta do sujeito. Vive-se uma espécie de caos interno, de impossibilidade de pensar e dar sentido ao que está a acontecer. Há uma desorganização física e mental (sinalizada, por exemplo, pelo choro intenso ou outras expressões de pesar, pela prostração e confusão), cuja intensidade dependerá da importância emocional da pessoa perdida, do quão repentina ou antecipada foi esta perda e do grau de preparação psicológica prévia. Em qualquer dos casos, haverá uma reação aguda de choque e de dor, mais ou menos intensa, face ao confronto do Eu com uma realidade insuportável e avassaladora.
Numa segunda fase, mais prolongada no tempo, predominam a tristeza e as vivências depressivas ligadas ao sentimento de falta da pessoa querida. Por vezes, observa-se um afastamento de qualquer atividade não relacionada com essa perda, um desinteresse pelo mundo exterior que é experienciado como insatisfatório e sem sentido. Procura-se manter a ligação com a pessoa falecida, relembrando-a através de conversas, fotografias, objetos, lugares. Fantasia-se o seu regresso, desejo esse que contrasta com a penosa realidade da sua ausência. De facto, embora a realidade indique que a pessoa desapareceu, o enlutado, inicialmente, é incapaz de se desapegar daquele que foi perdido, precisa de prolongar a sua existência.
Em alguns casos prevalece essa necessidade de afastamento e até de negação da realidade. É preciso manter vivo a todo o custo aquele que se perdeu de forma a evitar uma dor mental insuportável. Nestas situações o luto é reprimido, pois não é possível aceitar a mudança e experienciar a perda. Sabemos que esses lutos não elaborados estão, frequentemente, na base do surgimento ou agravamento de doenças mentais e físicas.
Noutros, é possível aceitar, viver e superar uma perda mesmo quando ela é profundamente significativa. Nesse processo ajuda muito o facto de, nos primeiros anos de vida, ter sido construída uma imagem de alguém protector e cuidador, dentro de si próprio. No fundo, possuir um mundo interno povoado por figuras de amor, boas e seguras, é o que permitirá tolerar e ultrapassar a dor da perda daquela pessoa real.
Num processo de luto “normal” a realidade sai vencedora, embora de forma progressiva. O trabalho de luto envolve esse confronto com o real que mostra que a pessoa amada já não existe. Há uma consciência do mundo sem ela, até porque a sua ausência é repetidamente relembrada pela casa desocupada, pela cadeira vazia, pelos objectos agora sem dono, pelas heranças que deixa.
E assim, à medida que o processo de luto avança, vai-se esboçando uma aceitação da perda, e o sofrimento, embora presente, torna-se menos intenso, menos generalizado e menos contínuo. Será decerto revivido a espaços, ligado a memórias e acontecimentos específicos – por exemplo um aniversário ou outra data importante – mas tenderá a diminuir.
Nesse processo o sujeito vai conseguindo reestabelecer a pessoa amada e perdida, dentro de si… É como se existisse uma integração dessa pessoa que se perdeu. Ela passa a habitar o seu mundo interno, a estar presente apesar da sua ausência. Essa identificação com o ente querido e a reprodução de algumas das suas características e hábitos observa-se, por exemplo, depois da morte dum familiar próximo, testemunhando a sua permanência a nível psíquico.
Simultaneamente, vai sendo também possível haver uma reorganização emocional e uma recuperação de investimentos afectivos dirigidos a outras pessoas ou a novas criações e projectos.
Perder alguém é como viver o fim de uma história. Quando termina uma vida, termina com ela um mundo inteiro, único e irrepetível. Desse mundo ficam as memórias do que foi partilhado, do que se viveu em conjunto. Existem perdas que são irreparáveis mas com o tempo é possível continuar a viver com e apesar delas. Recordar é manter aqueles que amámos vivos dentro de nós. Para que depois seja possível reinvestir outras relações e, nesse processo, reinventarmo-nos.
Viver implica necessariamente uma série de lutos.
À medida que a idade avança perdem-se pessoas importantes, mas também ideais, sonhos e desejos não concretizados. Essa integração das perdas não é fácil, rápida ou sem sobressaltos. Embora o luto seja um processo de ajustamento normal por vezes prolonga-se, reveste-se de dificuldades.
Uma psicoterapia é um caminho possível para viver e elaborar o sofrimento psicológico e construir novos começos.
Marta Aleixo
Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta